terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O esquema da moda


Antonio Conte é o grande mentor do Chelsea; muitos tentam imitá-lo, mas nenhum conseguiu os mesmos resultados até agora
O futebol é totalmente imediatista, como a humanidade nos dias atuais. Conceitos e preferências mudam da noite para o dia, o que configura um rol inesgotável de incoerências dentro e fora de campo. Assim como acontece no convívio social das pessoas em todas as áreas e atividades, o modismo toma conta de todos os atores envolvidos com o esporte mais popular do planeta, seja na imprensa ou entre dirigentes, treinadores e jogadores. Do ponto de vista tático, a moda agora é jogar no 3-4-3.

Não que o esquema seja o problema. Longe disso. Não estamos aqui para debater fatores subjetivos, pois o melhor esquema é aquele que vence e convence, independente do posicionamento dos jogadores em campo. O problema é quando se quer copiar algo que não é necessário, o que acarreta em perda de tempo e queda de desempenho.

Para que o leitor entenda melhor, desde que o Chelsea, que iniciou a temporada no 4-1-4-1, passou a jogar no 3-4-3, período em que conseguiu uma incrível sequência de 13 vitórias na Premier League, sob o comando do italiano Antonio Conte, várias equipes passaram a adotar o mesmo sistema. Segundo um levantamento realizados pelo comentarista dos canais ESPN, Rafael Oliveira, 11 equipes da Premier League jogaram dessa forma numa das rodadas de final de ano.

Ocorre que a maior parte dessas equipes nunca havia testado essa variação, salvo algumas exceções com o Everton do holandês Ronald Koeman. E a maioria não tem jogadores que se encaixam nesse sistema facilmente. Seria preciso mais tempo para treinamentos, o que não há nessa fase da temporada. Ou seja, o segredo do bom funcionamento da equipe como uma engrenagem dentro de campo é o "encaixe". Não é porque o Chelsea encaixou perfeitamente dessa forma que os outros times conseguiriam. Assim, ao invés de melhorar, equipes que já não vinham tendo um desempenho satisfatório nem conquistando os resultados esperados, pioraram. Num campeonato com 20 equipes, como a Premier League, é matematicamente impossível que 11 vençam só porque estão utilizando o esquema do líder.

Essa falta de coerência e convicção dos treinadores demonstra que a maioria, mesmo na Europa e no nível mais elevado de competitividade no futebol como o praticado na Inglaterra, não está preparada para comandar uma equipe profissional, pois não tem criatividade para encontrar as próprias soluções dentro do elenco. É verdade que em alguns casos, como o do Tottenham, que conseguiu a melhor campanha nas últimas quatro rodadas, com 100% de aproveitamento, inclusive quebrando a sequência de vitórias do Chelsea, a mudança também funcionou, mas a equipe do técnico argentino Mauricio Pochettino já vinha jogando bem e mesmo sem a mudança de esquema poderia ter conseguido a mesma façanha.

Antonio Conte já havia escalado suas equipes com três zagueiros nos últimos anos, tanto na Juventus como na seleção italiana, embora na maior parte desse tempo não tenha utilizado formação igual a que aplica no Chelsea e sim o 3-1-4-2. Mas não basta conhecer o esquema. É preciso encontrar os jogadores com as características.

Se Antonio Conte, um grande treinador, está de parabéns por ter encontrado a fórmula ideal para sua equipe, os outros, em sua maioria, não passam de gestores de grupo, que armam suas equipes conforme "a banda passa".

Na formação do Chelsea, líder do Campeonato Inglês, todos os jogadores subiram de produção e se destacam

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A máquina

Português conquistou pela quarta vez o prêmio de melhor jogador do mundo pela FIFA (Foto: REUTERS)

"Messi é um gênio. Cristiano Ronaldo uma máquina." A frase de Kaká ilustra perfeitamente o que representa cada um dos maiores jogadores do mundo atualmente e dois dos maiores da história do futebol. Desde 2008, a partir de quando ambos passaram a se alternar nos prêmios de melhor jogador do mundo, geralmente vence quem consegue mais conquistas coletivas, apesar de o prêmio ser individual.

Em 2016, Cristiano Ronaldo disputou 57 partidas, marcou 55 gols e ofereceu 17 assistências, somadas as aparições pelo Real Madrid e pela seleção portuguesa. De janeiro a dezembro, Lionel Messi participou de 61 partidas, marcou 59 vezes e deu 31 assistências.

Mas o português ganhou a Liga dos Campeões, o torneio de clubes mais valorizado do planeta. Em seguida, ajudou Portugal a conquistar a Eurocopa pela primeira vez. Já em dezembro, foi campeão do Mundial de Clubes. Messi venceu o Espanhol e a Copa do Rei, com o Barcelona, e fracassou na final da Copa América, com a Argentina.

Na última vez que o vencedor não se chamou Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi, o ano era 2007. Kaká havia sido o astro do Milan (ITA) campeão da Liga dos Campeões. Foi escolhido. Kaká, mais uma vez muito sabiamente, agradeceu as premiações da Fifa e da "France Football" com incrível sobriedade: "O prêmio individual só acontece por causa do desempenho coletivo."

Se o Milan não ganhasse a Liga dos Campeões, Kaká talvez não fosse escolhido, apesar de ter jogado mais do que todos os demais. Aquela foi a primeira vez que Messi e Cristiano apareceram no pódio, o argentino em segundo, o português em terceiro.

No ano seguinte, deu Cristiano Ronaldo, também campeão da Liga dos Campeões. Veio um tetracampeonato de Lionel Messi, Cristiano voltou a vencer em 2013 e 2014, Messi em 2015.

Se o ano é do Barcelona, vence Lionel. Se é do Real Madrid, ganha Cristiano. Esta é a vez do português, portanto.

Em tempo, por que "máquina" e "gênio"?

Cristiano Ronaldo é obcecado pelos treinamentos e procura incansavelmente se aperfeiçoar para não ficar para trás. O esforço do português compensa o talento menor que possui em relação a Messi e o coloca no mesmo patamar do argentino em números e conquistas coletivas e individuais. É uma máquina que leva muito a sério a profissão, tem uma fome insaciável de vitória e atropela quem estiver pela frente.

Messi é talento puro, natural, sem precisar de grandes esforços. Apesar de também se cuidar fisicamente, não é nesse aspecto seu diferencial e sim no dom que possui, praticamente impossível de se superar, pois além da habilidade que possui antevê as jogadas de maneira inacreditável.

No duelo entre a força e o jeito, dessa vez venceu a força.

Bom para nós, testemunhas oculares dessa grande época do futebol. Aproveitemos enquanto podemos, pois para surgirem craques desse nível levará muitos anos, ainda mais dois ao mesmo tempo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Chapecoense, um exemplo para a vida e para o futebol

É hora de o preto do luto dar lugar novamente ao verde da esperança na continuidade do clube

Filosoficamente, sempre procuro associar o futebol à vida, pois o esporte não deixa de ser uma representação da vida. Há dias em que perdemos e há dias em que vencemos. Há dias em que estamos tristes e há dias em que estamos felizes. O futebol é uma analogia perfeita dessa dinâmica. Depois de toda essa consternação que vivemos, o que posso dizer sobre o que aconteceu com a Chapecoense é que foi um golpe duro à vida de todo o mundo e a maior derrota da história do futebol, mas que deixa lições importantes.

A lição mais importante é para a vida, sobre a importância do amor. De poder valorizar todas as pessoas que estão à nossa volta enquanto elas estão vivas, sem desperdiçar um abraço, um beijo nem palavras de carinho, gratidão e incentivo.

Mas é uma lição para o futebol também, pois o o que acontece dentro de campo não pode nem deve nos abalar, nos irritar, nos rivalizar nem nos desestabilizar tanto assim. Essa tragédia mostra como é pequena uma derrota ou um rebaixamento do seu time. Como é desumano agredir alguém por torcer por outra equipe. Humano sim foi o que fez o torcedor colombiano e o Club Atlético Nacional em suas homenagens. Tomara que sejam campeões mundiais!

Além disso, não morreu a delegação de um clube qualquer. A Chapecoense é exemplo para todos os clubes do Brasil. Por isso, é preciso que as pessoas envolvidas com o futebol não se esqueçam da Chapecoense e mirem nesse clube em suas atitudes.

Em 2013, ainda quando eu cobria o Bragantino pela Equipe Futebol Total, tive o prazer de entrevistar o presidente do clube Sandro Pallaoro, em Bragança Paulista, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Antes da entrevista conversamos um pouco fora do ar e ele me explicou toda a mobilização da cidade envolvida em torno do clube, com incentivo dos empresários, programa de sócio-torcedores e toda uma comunidade envolvida. Chapecó respirava futebol. Não era um clube de um mecenas, de um político, de uma empresa ou de uma prefeitura, como muitas vezes acontece em cidades menores. Sem contar que, pessoalmente, ele me pareceu muito sereno e humilde. Tenho certeza que o presidente Pallaoro, que estava naquele voo fatal, irá para um bom lugar em outra dimensão, ao contrário da maioria dos dirigentes de clubes ou federações.

Naquela vez senti uma energia positiva do presidente e da diretoria, de que era um clube que procurava ser correto e alcançar o sucesso dessa forma, que era merecedor de chegar muito além de onde estava, o que confirmei após obter maiores informações, como todo jornalista faz. A partir daquele encontro, tive a certeza de que a Chapecoense subiria para a Série A, e para ficar, o que de fato aconteceu, embora muita gente não acreditasse, já que o clube acabara de vir da Série C. Diziam que naquele momento o time catarinense era um cavalo paraguaio e que embora liderasse o campeonato não teria fôlego para chegar entre os quatro. Não ficou com o título - o campeão da Série B daquele ano foi o Palmeiras - mas garantiu na segunda posição o acesso, que para mim já era certo desde aquele 24 de agosto de 2013.

Apenas três anos após aquele momento a Chapecoense não só se manteve na Série A do Brasileiro como alcançou o incrível feito de chegar à final da Copa Sul-Americana. Mas tenho certeza que esse não foi o ápice desse clube, que irá se reerguer, com ou sem ajuda de outros clubes, federações e CBF, e chegar ainda mais longe, pois tem respeito à torcida e ao orçamento, patrocinadores, estrutura, planejamento, organização e muita força de vontade de sua comunidade e sua cidade.

A Chapecoense entrou para a história do futebol definitivamente após essa tragédia. Mas ficará marcada também por suas conquistas, mais cedo ou mais tarde, com certeza. Merece!

FORÇA CHAPE! VAMOS CHAPE!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O epicentro do futebol

Etihad Stadium viveu uma noite mágica

Gundogan e De Bruyne celebram um dos gols do Manchester City, que estava com o Barcelona "engasgado"

André Henning, narrador do Esporte Interativo, foi muito feliz ao abrir a transmissão de Manchester City x Barcelona nesta tarde (pelo horário de Brasília) pela quarta rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA e dizer: "O Etihad Stadium hoje é o epicentro do futebol do planeta". Definição mais clara e precisa não poderia existir, não somente pela força econômica dessas equipes, mas também pela excelência do futebol que procuram praticar.

Se perdeu de 4 a 0 em Barcelona, resultado que não refletiu exatamente o que foi o jogo, nesta vitória por 3 a 1 o time comandado por Pep Guardiola foi mais preciso em sua estratégia de pressionar o adversário e propor o jogo, o que é muito difícil diante da qualidade do Barcelona, que, é verdade, sentiu o desfalque do mestre do meio-campo Iniesta, e foi dominado na maior parte do jogo pela equipe inglesa, tanto que o gol e Messi, que abriu o placar foi no contra-ataque e todas as chances criadas pelos catalães ao longo do jogo foram dessa forma. Já o City, depois que marcou o gol de empate no final da primeira etapa, foi senhor do jogo e chegou à virada de maneira merecida.

Mas o que importa e que tem que ficar claro é que tanto o Barcelona, pela essência do clube, quanto o Manchester City, pela essência de seu treinador, também barcelonista, praticam o estilo de jogo que mais propõe desafios, que é o da construção de jogadas e que se incomodam quando estão sem a bola. Por isso foi um jogo movimentado e com ambas as equipes buscando a bola e o gol a todo momento.

Oxalá todas as equipes tivessem esse pensamento. O espetáculo do futebol seria ainda melhor.

*Manchester City no "um pra um", as chaves o jogo:

No primeiro terço do campo, defesa do Barcelona não tinha espaço para a saída de jogo, principalmente na primeira etapa, tanto que o gol de empate do City foi resultado dessa pressão:

Barcelona:
20 - Sergi Roberto; 14 - Mascherano; 23 - Umtiti; 19 - Digne; 5 - Busquets

Manchester City:
7 - Sterling; 8 - Gundogan; 17 - De Bruyne; 10 - Aguero; 21 - David Silva



No segundo terço do campo, Manchester City também não dava espaço:

Barcelona:
20 - Sergi Roberto; 5 - Busquets; 19 - Digne; 4 - Rakitic; 21 - André Gomes

Manchester City:
25 - Fernandinho; 8 - Gundogan; 7 - Sterling; 21 - David Silva; 17 - De Bruyne



Como marcou logo no começo do segundo tempo o gol da virada, o Manchester City não precisou pressionar tanto a defesa do Barcelona até o fim.

De um modo geral, a estratégia de "sufocar" os laterais, zagueiros e meio-campistas do Barcelona não permitia que a bola chegasse com qualidade ao trio MSN (Messi, Suarez e Neymar).

Futebol tem o acaso? Tem. Futebol tem a individualidade? Tem. Mas outro fator também pode fazer a diferença e é preciso sempre ser utilizado pelas equipes como obrigação: a Estratégia, que quando dá certo como deu hoje para o Manchester City, para quem gosta de futebol, é muito bom de se ver na prática.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Motivos para uma morte feliz

Carlos Alberto Torres ergue a taça da Copa de 70, um dos maiores momentos da história do esporte (Foto: Divulgação)

Claro que não há morte sem dor, mas se a única certeza que temos na vida é o desencarne, então que aconteça sem muito sofrimento e num momento em que estamos realizados em nossas vidas. Foi assim com Carlos Alberto Torres, arrisco, pois além de não ter falecido vítima de um acidente, um crime ou de uma doença degenerativa, que são terríveis, viveu muitas glórias ao longo da vida. A maior delas, uma das principais da história futebol e da humanidade, que foi levantar a taça como capitão da maior seleção de futebol, o maior esporte do planeta, de todos os tempos, em 1970, após ter marcado o gol que fechou a goleada diante da rival Itália na final, numa das jogadas coletivas mais brilhantes das Copas. E para completar, nos deixou num grande momento, do ponto de vista técnico e tático, do futebol, o qual ele ainda tanto amava. Com certeza, ele se foi mais feliz com a qualidade do espetáculo de hoje do que de alguns anos atrás.

Assisti após a morte do "Capita" a uma entrevista que ele concedeu em 2000 ao programa "Bola da Vez", na ESPN. Além de conversar com os entrevistadores sobre sua carreira de jogador e técnico, claro, Carlos Alberto Torres comentava o futebol da época, sem pontas, algo inimaginável em sua época de jogador e nos dias de hoje.

De fato, naqueles tempos, estávamos no auge da mediocridade tática. O Brasil dependia da individualidade de jogadores talentosos. Não existia mais o conjunto aliado ao talento, como na época do "Capita". Depois do grande São Paulo de Telê Santana, no início dos anos 90, campeão de tudo, que jogava sem pontas fixos, mas tinha uma movimentação impressionante e, portanto, sempre alguém caindo pelas pontas, não houve no Brasil um time de encher os olhos para quem gosta da tática, tanto que naquela entrevista o próprio Carlos Alberto disse que o São Paulo de Telê era um espelho para ele.

Houve, claro, anos depois, grandes talentos que também encantavam em suas equipes, mas repito, na base da individualidade, como o Palmeiras na era Parmalat, que teve estrelas como Edmundo, Edilson, Evair, Rivaldo, Muller, Djalminha, Alex entre outros, nem sempre juntos, o Corinthians na era Hicks Muse com Rincón, Vampeta, Marcelinho, Ricardinho e Edilson, juntos, o Vasco de Edmundo, o Cruzeiro de Alex e o Santos nas eras Diego e Robinho e Ganso e Neymar, que foram times vencedores.

Era o tempo dos "super técnicos", que podiam contar com quem quisessem no elenco e mesmo assim eram chamados de "mestres" da tática, sem nada para isso fazerem. Simplesmente tinham os melhores em suas mãos. Tanto que com certeza se os comandantes dessas equipes fossem mestres da tática elas seriam muito mais brilhantes do que foram.

Concordo que no futebol não só o conhecimento tático faz a diferença para um treinador. É preciso também ser um líder, um gestor de grupo e, no caso do Brasil - em que o futebol culturalmente não é encarado pelos jogadores e diretores como um trabalho e sim como um jogo de sorte e azar, embora isso esteja melhorando - um motivador. Alguns treinadores desses últimos 20 anos tinham esse perfil, de chefe, o que não deixa de ser uma virtude.

Mas dizer que nessa época eram grandes estrategistas é uma falta de conhecimento incrível do futebol. Primeiro, como já apontado, não havia jogadores pelas pontas. Não tinha quem marcasse os laterais adversários. "Batiam" lateral com lateral. Os volantes tinham que cobrir esses laterais e deixavam um buraco no meio. Isso quando não se enfiavam na zaga, o que dava o mesmo resultado. E assim, com os jogadores espalhados espaçadamente em campo, a recomposição era lenta, a não ser que um dos atacantes e um dos meias decidissem abrir pelas pontas com o time sem a bola para fechar os espaços.

E para você que é mais jovem ou começou a entender um pouco mais o jogo recentemente, era isso mesmo. Um dos meias e um os atacantes. Sim, porque as equipes jogavam no 4-2-2-2. Eram dois zagueiros, dois laterais que eram mais pontas que laterais, dois volantes que eram mais laterais ou zagueiros que volantes, dois meias que não marcavam e dois atacantes, sendo um deles o tradicional centroavante e o outro que ficava correndo por todos os lados, sem posição fixa. Dos esquemas mais mais utilizados hoje em dia, o 4-3-3 havia sido extinto e o 4-2-3-1 não existia, tampouco o 4-1-4-1. Quando os times resolviam jogar com três zagueiros, eram três zagueiros "cintura dura" e laterais que não sabiam passar a bola, apenas correr, diferentemente de como ocorre hoje, com alguns times europeus que jogam com três zagueiros, em que dois deles, pelo menos, são bons passadores, assim como os alas. Tempos sofríveis.

Mas não é obrigatório que as equipes tenham pontas. A seleção de 70 mesmo, como comentamos, a maior de todos os tempos, não tinha. Mas ao menos sem a bola, é preciso fechar os espaços nas laterais e no meio, algo básico, como faziam as seleções de 70 e 82, e que o futebol brasileiro deixou de fazer desde meados da década de 90 até meados da década de 2010, principalmente após o Brasil ser destroçado na Copa de 2014. Aquele time tinha os jogadores pelas pontas, e só, pois além de os jogadores serem colocados em funções erradas, fora das características, o que diminuía ainda mais a qualidade do time, ainda havia a deficiência tática de ter um volante muito próximo à zaga e o outro muito longe, perdido no meio. E quando o time está sem meio-campo é a mesma coisa que um avião sem piloto.

É verdade que naqueles tempos o Brasil ganhou duas Copas. Em 94 com uma equipe extremamente defensiva e que tinha em Romário o diferencial. Assim foi também na Copa de 2002, em que o talento de Rivaldo e Ronaldo fez toda diferença. Mas não houve um futebol em conjunto de alto nível apresentado, embora essas seleções fossem bem superiores aos times brasileiros da época taticamente. Quando penso em futebol brasileiro, assim como Carlos Alberto, não basta apenas vencer. É preciso vencer e jogar bem, de maneira ofensiva, com posse de bola e movimentação constantes, que alavancam o talento e a capacidade de improviso.

O pior de tudo isso, é que em todos esses anos, o Brasil deixou de formar grandes jogadores no meio-campo que marcam e atacam. Ou o jogador apenas marcava ou apenas atacava, sem meio termo. Criaram um latifúndio justamente no cérebro de uma equipe de futebol.

Depois daquela catástrofe de 2014, no Brasil, os clubes e os técnicos começaram a mudar o conceito e a fazer o que se faz na Europa - que também viveu tempos medíocres taticamente nos anos 90 e início dos anos 2000 - há mais de 10 anos. Ou seja, ao invés do técnico bonachão e medalhão o técnico estudioso e dedicado a todos os aspectos do futebol passou a ter mais espaço, e os atletas passaram a entender a necessidade de se doarem mais e entender melhor o jogo, caso contrário não terão espaço na Europa.

É claro que ainda estamos longe de apresentar o encanto da época de Carlos Alberto Torres aqui no Brasil. Mas como isso ocorre na Europa, mesmo com a exigência do preparo físico muito maior atualmente, e como começamos a melhorar no futebol brasileiro após tempos medíocres, certamente o "Capita" teve motivos para partir mais feliz com o esporte que tanto amou. Valeu "Capitão"!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Separando o joio do trigo

Acusado de corrupção, Del Nero ainda é o presidente da CBF

Que houve uma clara evolução da Seleção Brasileira sob o comando do técnico Tite é evidente. Ele fez o óbvio e se deu bem. Ou seja, com pouco tempo para treinar colocou cada jogador em sua posição e deu certo. Sem contar a experiência do treinador não só do ponto de vista tático como no diálogo com os atletas, algo essencial também pelo pouco tempo de trabalhar com os jogadores que tem um técnico de seleção. A análise apresentada é consensual. Mas o que precisa ser uma avaliação geral também é que o que acontece dentro de campo não pode esconder as mazelas do futebol brasileiro, comandado pela nefasta figura de Marco Polo Del Nero.

Acusado de corrupção nos Estados Unidos, desde o ano passado o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é investigado pelo Comitê de Ética da Fifa por ter se beneficiado de um esquema de recebimento de propina na venda de direitos de torneios no país e no exterior. Em dezembro, o FBI o denunciou por corrupção. Del Nero alega inocência.

A entidade é investigada por duas CPIs em Brasília e teve os últimos três presidentes envolvidos no escândalo de corrupção na Fifa. Ex-presidente da CBF, José Maria Marin está preso no exterior desde maio do ano passado. Outros dirigentes de futebol pelo mundo também foram presos. Desde as prisões em 2015 na Suíça, Del Nero nunca mais deixou o Brasil, apesar dos inúmeros compromissos da seleção gerida pela entidade que preside.

Mesmo com todos esses problemas, o sumido (das câmeras porque dos bastidores...) presidente da CBF tem os clubes e as federações nas mãos. Nas sucessivas reeleições de seu grupo político, as votações, por incrível que pareça são praticamente unânimes a seu favor. Somente as federações e os clubes das séries A e B votam. Mas as federações não fazem nada pelo futebol. E os clubes que não fazem parte desse rol, e que são a maioria, vivem situação paupérrima.

Assim, o bom início de trabalho de Tite e as grandes atuações de Neymar, Gabriel Jesus e companhia não podem ser o ópio para o esquecimento de Del Nero. Sem dúvida ainda há algo de podre na entidade que tem como sede o edifício José Maria Marin e isso não pode ser deixado de lado. É preciso separar o joio do trigo.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Momento de reagir

É grande a expectativa para a estreia do técnico Tite. Brasil enfrenta o Equador em Quito, dia 1 de setembro, quinta-feira, às 18h00 (horário de Brasília); na terça a equipe joga em território brasileiro, na Arena Amazônia, terça-feira, 6, às 21h45
(Foto: Kin Saito / CBF)

A primeira convocação de Tite como técnico da Seleção Brasileira, em geral, foi boa. O pensamento deste blogueiro pode ser conferido em post anterior. Leia mais.

Na maioria dos nomes há concordância. Fernando Prass e Douglas Costa só não foram chamados porque estão contundidos. Thiago Silva e Ganso, talvez por ainda não estarem nas condições ideias do ponto de vista físico e até mesmo técnico no caso de Ganso, já que ele recém chegou ao Sevilla. Na época da postagem o meia ainda defendia o São Paulo e estava em alta. Vale lembrar que ele sofreu uma contusão antes de ir para a Espanha e ficou fora dos jogos decisivos do time do Morumbi na Libertadores.

Entre os olímpicos, todos foram sugeridos naquela postagem, com exceção de Weverton e Rodrigo Caio. Mas nesse meio tempo, entretanto, ambos fizeram uma Olimpíada tão boa que não poderiam ficar de fora.

Das novidades, Fagner, Rafael Carioca e Giuliano haviam sido sugeridos e listados como opções. Já as convocações de Paulinho e Taison em nada se justificam. Allan, do Napoli, e Luan, do Grêmio, respectivamente, deveriam ser chamados para as vagas do volante e do atacante.

Mas numa convocação de seleção, em momentos de dúvidas, geralmente os técnicos acabam convocando quem é de maior confiança. Paulinho, no Corinthians, e Taison, no Inter, foram atletas do atual treinador da Seleção Brasileira.

É preciso sempre levar em consideração, no entanto, que o futebol não é uma ciência exata e há muitos aspectos subjetivos envolvidos na montagem de um grupo. Portanto, nunca haverá um consenso numa convocação.

O respeito e a confiança que se devem ter em Tite nesse momento são grandes, pois depois de muito tempo a seleção tem um treinador que, de fato, era o melhor do País antes de assumir o cargo.

Tite também deu sorte. O momento é bom para sua estreia, já que a conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas melhorou a empolgação dos torcedores, e portanto favorável para reagir e sair da incômoda sexta colocação nas Eliminatórias, posição que hoje não daria a classificação nem para a repescagem da Copa de 2018 na Rússia.

A provável escalação do novo treinador no 4-1-4-1:


OBS; os números são apenas sugestivos

Reservas

Goleiros: Marcelo Grohe e Weverton
Laterais: Fágner e Filipe Luís
Zagueiros: Marquinhos e Rodrigo Caio
Volante: Rafael Carioca
Meias: Lucas Lima e Giuliano
Atacantes: Gabigol, Gabriel Jesus e Taison