quarta-feira, 22 de junho de 2016

O futebol brasileiro está melhorando

Quem lê o título acima pode se assustar e achar absurdo. Mas a explicação é simples.

Depois dos 7 a 1, da prisão de José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e da vergonhosa situação da Seleção Brasileira nos jogos no exterior por não ter seu presidente atual, Marco Polo Del Nero, acompanhando a delegação para não ser preso também, como se evidencia, a maioria das pessoas que acompanham e gostam do futebol acordou.

Antes desses acontecimentos, apenas uma pequena parte dos torcedores, da imprensa e dos ex-jogadores criticavam abertamente o futebol brasileiro. Hoje, 99% dessas mesmas categorias criticam o atual estágio do futebol brasileiro, assim como boa parte dos técnicos e uma pequena parte de jogadores e dirigentes. Note que os que criticam menos ou não criticam é porque têm seus interesses ou temores e não por admiração. Os atletas porque nutrem, obviamente, o sonho de vestir a amarelinha e temem, em caso de um posicionamento contrário à CBF, uma represália, o que é muito provável pelo perfil de Del Nero e seus asseclas. Os cartolas para se manterem no poder com suas regalias.

Tanto que o assunto da semana, a contratação do técnico Tite para a Seleção, apesar de elogiada, foi colocada por praticamente todos os personagens do meio futebolístico com ressalvas, pois o consenso é de que enquanto essa gente que está no poder - não só da CBF, mas nas federações e nos clubes em sua maioria - permanecer, o futebol brasileiro não avançará.

Até mesmo a Rede Globo, por meio de seu porta voz, Galvão Bueno, tem criticado constantemente o atual momento do futebol brasileiro e a figura nefasta do presidente da CBF por não acompanhar a Seleção, que perde cada vez mais força e respeito, tanto dos rivais como dos próprios brasileiros, o que é grave para a emissora, pois com a diminuição do interesse do torcedor podem diminuir também a audiência e o retorno publicitário.

Tite é um alento, mas a contratação de um novo técnico, mesmo sendo praticamente unânime a admiração pelo seu trabalho, já não é mais suficiente, pois o torcedor brasileiro percebeu que agora não há mais escudos como Pelé, Garrincha, Didi, Gérson, Tostão, Rivelino, Sócrates, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo entre outros que, pelo talento extraordinário, serviram para encobrir a incompetência dos comandantes do nosso futebol ao longo da história. João Havelange e Ricardo Teixeira tiveram mais sorte que Marin e Del Nero por terem esses craques à disposição em suas épocas (hoje só temos Neymar e outras promessas, o que é muito pouco), por já terem deixado o futebol antes da deflagração das investigações do FBI (e após terem ficado milionários). E só. Ainda assim, Teixeira é outro que também não pode sair do País.

Apenas o talento de brilhantes jogadores e a competência de alguns técnicos como Vicente Feola, Aymoré Moreira, Zagallo, Telê Santana, Parreira (o de 94), Felipão (o de 2002) em organizá-los da melhor maneira possível fizeram o futebol brasileiro vencedor. Nunca a competência dos dirigentes, nunca a organização do futebol.

Por isso, é urgente, não uma reorganização como muitos dizem, pois essa nunca existiu, e sim a organização do futebol brasileiro e a implementação de algumas medidas, como, por exemplo:

- A transformação dos clubes em sociedades anônimas do futebol (SAF´s). Entenda

- A criação de uma liga nacional de clubes para organizar campeonatos e contribuir com os clubes na busca de recursos, independente da CBF, que deveria cuidar apenas dos interesses da seleção e de questões burocráticas, como registros de jogadores, assim como é nos principais países do futebol.

- O estabelecimento de um teto financeiro, pois os salários de técnicos e jogadores são cada vez maiores e os clubes estão cada vez mais endividados.

- A viabilização de um calendário anual para todos os clubes profissionais do País, sem exceção, já que a maioria disputa o campeonato estadual no primeiro semestre e depois não tem o que jogar.

- A proibição, por parte da CBF, da terceirização das categorias de base pelos clubes a empresários e a exigência de que, além de oferecerem estrutura de treinamentos para os atletas menores, os clubes das principais divisões mantenham escolas com um padrão de qualidade estabelecido. Para isso, a CBF, ao invés de gastar com o que não deve, destinaria os recursos necessários para esse investimento no atleta como um ser humano e não como um produto, seguindo o exemplo dos alemães, que, sem querer, nos humilharam.

- A iniciativa, por parte dos clubes, de integrar o departamento de base com o profissional, adotando o mesmo modelo de jogo, o que facilitaria a adaptação dos atletas que sobem da base para o profissional, como é no Barcelona.

Enfim, essas é muitas outras medidas são óbvias e prementes para quem acompanha o futebol.

Os 7 a 1 escancararam uma realidade que muitos não tinham percebido, a de que o futebol brasileiro ficou para trás. Para piorar essa dor foi sentida diante de um grande rival como a Alemanha, esta sim que progrediu. A vergonha de torcer por uma seleção comandada por uma entidade como a CBF é maior que qualquer grau de nacionalismo.

Muitas vezes se aprendem lições pela dor ou pela vergonha. E o futebol brasileiro está aprendendo. Esse é o primeiro passo para a melhora. As mudanças podem tardar, mas não falharão.


Agência Brasil (17/07/2014)


Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Sede da CBF, no Rio de Janeiro, de onde deveriam sair as principais ideias do futebol brasileiro. Infelizmente é o contrário. Também não é para menos. Afinal, o que esperar de uma entidade cujo edifício se chama José Maria Marin? O letreiro com o nome do cartola foi removido após sua prisão, mas a essência é a mesma, lamentavelmente

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