quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Dever cumprido

O trabalho de Edgardo Bauza no São Paulo estava no caminho certo, mas o técnico preferiu realizar seu sonho de assumir a seleção de seu país

O técnico Edgardo Bauza deixa o São Paulo para assumir a seleção da Argentina com números teoricamente modestos. Em 46 jogos foram 16 vitórias, 13 empates e 17 derrotas. Para os que observam apenas os números, o desempenho de Bauza à frente do São Paulo não pode ser considerado bom. Mas para quem enxerga o futebol um pouco além das quatro linhas, o argentino sai do São Paulo com o dever cumprido até aqui.

Sempre defendo que o tempo ideal para se avaliar o trabalho de um treinador é de no mínimo 2 anos. O primeiro ano serve para o plantio. O segundo para a colheita. Ou seja, futebolisticamente falando, no primeiro ano o técnico implanta sua filosofia de jogo, o esquema ou esquemas táticos que considera mais apropriados e encontra os jogadores que executa as funções da melhor maneira nos momentos ofensivo e defensivo do jogo. Mais importante que brigar por títulos é fazer a equipe render bem. Já na segunda temporada, com a tendência de o time, mais entrosado, ter mais desempenho que na primeira, é que se deve cobrar o que se espera. No caso do São Paulo, títulos.

Bauza foi contratado em dezembro do ano passado para ajudar o São Paulo, com um grupo de jogadores até então acomodados, junto a outros jogadores contratados, como Maicon, Lugano e Calleri, voltar a ter um time aguerrido e competitivo e depois buscar títulos. De maneira surpreendente, levou o time até a semifinal da Libertadores e poderia ter chegado à final. Foi eliminado apenas diante do Atlético Nacional, campeão e melhor time da competição, em jogos com arbitragens desastrosas. No Brasileiro, como esperado, o time não briga pelo título e tenta no máximo uma vaga na Libertadores.

Mas o time tem uma identidade, agrade ou não. E essa identidade custou a ser criada. Primeiro porque o grupo tinha problemas de vestiário no começo da temporada. A derrota para o The Strongest no Pacaembu, pela primeira rodada da Libertadores, trouxe uma carga enorme de tensão ao clube, que soube se unir no momento certo, entre dirigentes, comissão técnica e jogadores, para levar o São Paulo mais longe na competição mais cobiçada da América do que os outros clubes brasileiros, com elencos até melhores ou mais entrosados dentro de campo. Conforme o comprometimento dos jogadores com o clube foi aumentando - e Bauza cumpria o primeiro objetivo - a estrutura tática foi se consolidando, um 4-2-3-1, que varia para um 4-4-1-1, com marcação forte em duas linhas bem próximas, um meia de criação e um centroavante.

É claro que os jogadores e o técnico vêm cometendo alguns erros durante a temporada, mas o ajuste e a solidificação de uma equipe levam tempo. Por isso o trabalho tem que ser a longo prazo, como escrito aqui anteriormente. É preciso lembrar ainda que Bauza perdeu três pilares da equipe no momento mais importante da Libertadores: João Schmidt, Kelvin e Ganso, que se contundiram. Ganso, inclusive, deixou a equipe não só na competição sul-americana como em definitivo, negociado com o futebol europeu, assim como Calleri. Para piorar, ao longo da temporada os reservas do setor ofensivo também saíram, casos de Rogério e Kardec, sem contar Ytalo e Lucas Fernandes, que tiveram lesões de ligamento nos joelhos e voltam somente no ano que vem. Para piorar, Rodrigo Caio foi para as Olimpíadas e é mais um desfalque.

Não há tempo para mudar o estilo de jogo. Não existe fórmula mágica no futebol. Portanto, o São Paulo precisa de um técnico que dê sequência ao trabalho de Bauza. Igual ninguém é, mas que seja parecido, pois caso contrário o time pode se desmantelar novamente, como no ano passado, em que o São Paulo teve quatro técnicos: Muricy Ramalho, Juan Carlos Osorio, Doriva e Milton Cruz, todos com características diferentes uns dos outros.

E quem é esse treinador? Pergunta difícil. Se Diego Aguirre, técnico uruguaio, não tivesse acertado com o San Lorenzo, ex-clube de Bauza na Argentina, seria o nome ideal, pois trabalhou recentemente em dois clubes grandes no Brasil, Internacional e Atlético Mineiro, com dois bons trabalhos - acabou deixando ambos por falta de competência e convicção de seus dirigentes - e arma suas equipes de uma maneira parecida à do argentino.

Assim, Abel Braga, treinador experiente e aguerrido como o argentino, embora um pouco menos defensivista, e que está sem clube, é o nome ideal. Resta saber se não esbarrará na questão salarial, já que ganhava muito no futebol árabe.

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