quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Motivos para uma morte feliz

Carlos Alberto Torres ergue a taça da Copa de 70, um dos maiores momentos da história do esporte (Foto: Divulgação)

Claro que não há morte sem dor, mas se a única certeza que temos na vida é o desencarne, então que aconteça sem muito sofrimento e num momento em que estamos realizados em nossas vidas. Foi assim com Carlos Alberto Torres, arrisco, pois além de não ter falecido vítima de um acidente, um crime ou de uma doença degenerativa, que são terríveis, viveu muitas glórias ao longo da vida. A maior delas, uma das principais da história futebol e da humanidade, que foi levantar a taça como capitão da maior seleção de futebol, o maior esporte do planeta, de todos os tempos, em 1970, após ter marcado o gol que fechou a goleada diante da rival Itália na final, numa das jogadas coletivas mais brilhantes das Copas. E para completar, nos deixou num grande momento, do ponto de vista técnico e tático, do futebol, o qual ele ainda tanto amava. Com certeza, ele se foi mais feliz com a qualidade do espetáculo de hoje do que de alguns anos atrás.

Assisti após a morte do "Capita" a uma entrevista que ele concedeu em 2000 ao programa "Bola da Vez", na ESPN. Além de conversar com os entrevistadores sobre sua carreira de jogador e técnico, claro, Carlos Alberto Torres comentava o futebol da época, sem pontas, algo inimaginável em sua época de jogador e nos dias de hoje.

De fato, naqueles tempos, estávamos no auge da mediocridade tática. O Brasil dependia da individualidade de jogadores talentosos. Não existia mais o conjunto aliado ao talento, como na época do "Capita". Depois do grande São Paulo de Telê Santana, no início dos anos 90, campeão de tudo, que jogava sem pontas fixos, mas tinha uma movimentação impressionante e, portanto, sempre alguém caindo pelas pontas, não houve no Brasil um time de encher os olhos para quem gosta da tática, tanto que naquela entrevista o próprio Carlos Alberto disse que o São Paulo de Telê era um espelho para ele.

Houve, claro, anos depois, grandes talentos que também encantavam em suas equipes, mas repito, na base da individualidade, como o Palmeiras na era Parmalat, que teve estrelas como Edmundo, Edilson, Evair, Rivaldo, Muller, Djalminha, Alex entre outros, nem sempre juntos, o Corinthians na era Hicks Muse com Rincón, Vampeta, Marcelinho, Ricardinho e Edilson, juntos, o Vasco de Edmundo, o Cruzeiro de Alex e o Santos nas eras Diego e Robinho e Ganso e Neymar, que foram times vencedores.

Era o tempo dos "super técnicos", que podiam contar com quem quisessem no elenco e mesmo assim eram chamados de "mestres" da tática, sem nada para isso fazerem. Simplesmente tinham os melhores em suas mãos. Tanto que com certeza se os comandantes dessas equipes fossem mestres da tática elas seriam muito mais brilhantes do que foram.

Concordo que no futebol não só o conhecimento tático faz a diferença para um treinador. É preciso também ser um líder, um gestor de grupo e, no caso do Brasil - em que o futebol culturalmente não é encarado pelos jogadores e diretores como um trabalho e sim como um jogo de sorte e azar, embora isso esteja melhorando - um motivador. Alguns treinadores desses últimos 20 anos tinham esse perfil, de chefe, o que não deixa de ser uma virtude.

Mas dizer que nessa época eram grandes estrategistas é uma falta de conhecimento incrível do futebol. Primeiro, como já apontado, não havia jogadores pelas pontas. Não tinha quem marcasse os laterais adversários. "Batiam" lateral com lateral. Os volantes tinham que cobrir esses laterais e deixavam um buraco no meio. Isso quando não se enfiavam na zaga, o que dava o mesmo resultado. E assim, com os jogadores espalhados espaçadamente em campo, a recomposição era lenta, a não ser que um dos atacantes e um dos meias decidissem abrir pelas pontas com o time sem a bola para fechar os espaços.

E para você que é mais jovem ou começou a entender um pouco mais o jogo recentemente, era isso mesmo. Um dos meias e um os atacantes. Sim, porque as equipes jogavam no 4-2-2-2. Eram dois zagueiros, dois laterais que eram mais pontas que laterais, dois volantes que eram mais laterais ou zagueiros que volantes, dois meias que não marcavam e dois atacantes, sendo um deles o tradicional centroavante e o outro que ficava correndo por todos os lados, sem posição fixa. Dos esquemas mais mais utilizados hoje em dia, o 4-3-3 havia sido extinto e o 4-2-3-1 não existia, tampouco o 4-1-4-1. Quando os times resolviam jogar com três zagueiros, eram três zagueiros "cintura dura" e laterais que não sabiam passar a bola, apenas correr, diferentemente de como ocorre hoje, com alguns times europeus que jogam com três zagueiros, em que dois deles, pelo menos, são bons passadores, assim como os alas. Tempos sofríveis.

Mas não é obrigatório que as equipes tenham pontas. A seleção de 70 mesmo, como comentamos, a maior de todos os tempos, não tinha. Mas ao menos sem a bola, é preciso fechar os espaços nas laterais e no meio, algo básico, como faziam as seleções de 70 e 82, e que o futebol brasileiro deixou de fazer desde meados da década de 90 até meados da década de 2010, principalmente após o Brasil ser destroçado na Copa de 2014. Aquele time tinha os jogadores pelas pontas, e só, pois além de os jogadores serem colocados em funções erradas, fora das características, o que diminuía ainda mais a qualidade do time, ainda havia a deficiência tática de ter um volante muito próximo à zaga e o outro muito longe, perdido no meio. E quando o time está sem meio-campo é a mesma coisa que um avião sem piloto.

É verdade que naqueles tempos o Brasil ganhou duas Copas. Em 94 com uma equipe extremamente defensiva e que tinha em Romário o diferencial. Assim foi também na Copa de 2002, em que o talento de Rivaldo e Ronaldo fez toda diferença. Mas não houve um futebol em conjunto de alto nível apresentado, embora essas seleções fossem bem superiores aos times brasileiros da época taticamente. Quando penso em futebol brasileiro, assim como Carlos Alberto, não basta apenas vencer. É preciso vencer e jogar bem, de maneira ofensiva, com posse de bola e movimentação constantes, que alavancam o talento e a capacidade de improviso.

O pior de tudo isso, é que em todos esses anos, o Brasil deixou de formar grandes jogadores no meio-campo que marcam e atacam. Ou o jogador apenas marcava ou apenas atacava, sem meio termo. Criaram um latifúndio justamente no cérebro de uma equipe de futebol.

Depois daquela catástrofe de 2014, no Brasil, os clubes e os técnicos começaram a mudar o conceito e a fazer o que se faz na Europa - que também viveu tempos medíocres taticamente nos anos 90 e início dos anos 2000 - há mais de 10 anos. Ou seja, ao invés do técnico bonachão e medalhão o técnico estudioso e dedicado a todos os aspectos do futebol passou a ter mais espaço, e os atletas passaram a entender a necessidade de se doarem mais e entender melhor o jogo, caso contrário não terão espaço na Europa.

É claro que ainda estamos longe de apresentar o encanto da época de Carlos Alberto Torres aqui no Brasil. Mas como isso ocorre na Europa, mesmo com a exigência do preparo físico muito maior atualmente, e como começamos a melhorar no futebol brasileiro após tempos medíocres, certamente o "Capita" teve motivos para partir mais feliz com o esporte que tanto amou. Valeu "Capitão"!

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